PLANEJAMENTO E GESTÃO NO HC DE PORTO ALEGRE MOSTRAM BONS RESULTADOS EM UNIDADE PÚBLICA DE REFERÊNCIA

Atualizado: Ago 20

Uma série de medidas no inicio da pandemia garantiram ótimos resultados na solução de vários problemas enfrentados pelas unidades públicas de saúde no país. O HCPA apresenta índices baixos de infecção de profissionais, alta resolutividade de pacientes internados, fluxo satisfatório para atender pacientes com demais enfermidades e outros quesitos alcançados. Veja abaixo, a entrevista completa com o Médico infectologista Rodrigo Pires dos Santos, Coordenador da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, e membro do Conselho Científico da SOBRASP.

1 - Quais os procedimentos de segurança dos profissionais de saúde e dos pacientes adotados em tempos de Covid no Hospital das Clinicas de Porto Alegre, no estado do Rio Grande do Sul?

Desde o início do planejamento um dos principais insumos que o hospital priorizou para o enfrentamento da pandemia foram aqueles relacionados com a testagem molecular diagnóstica por RT-PCR. A disponibilidade destes insumos associado ao expertise dos profissionais do laboratório do hospital e a organização para liberação rápida dos resultados proporcionou um diagnóstico ágil dos casos (e não casos) possibilitando uma otimização no uso dos recursos para prevenção, como os EPIs e os leitos, outro item escasso em situações de aumento de demanda por internações hospitalares. Assim foi organizado um fluxo de atendimento dos pacientes para áreas dedicadas ao isolamento e medidas preventivas, e suspensão das medidas de precaução, baseado nos testes moleculares e decisão compartilhada entre as equipes assistenciais e de CCIH. Dentro desta organização, os testes são liberados no mesmo dia da entrada no laboratório, entrando no turno da manhã e sendo liberados no final da tarde.

2 - O HC obteve índices de contaminação por profissionais de saúde muito abaixo de outros hospitais públicos que receberam um número bastante elevado de pacientes infectados pelo novo coronavírus. A que se deve esse êxito?

O Hospital de Clínicas é um hospital público referência para atendimento de pacientes graves com suspeita ou confirmação de Covid-19. O planejamento do atendimento inclui criação de novos leitos de terapia intensiva (até um total de 105 leitos para pacientes com Covid-19) de forma escalonada medida que havia um aumento da prevalência dos casos. Além disso, houve a criação de 82 leitos leitos de enfermaria para dar suporte a UTI e internação via emergência de pacientes que não necessitam leitos de UTI. Até o dia 21 de julho foram internados 550 pacientes, com 296 altas e 80 óbitos. O Serviço de Medicina Ocupacional do hospital também se reorganizou para atender a demanda aumentada de profissionais com suspeita de infecção pelo Covid-19. Criou-se uma unidade dedicada para atendimento ambulatorial (e via telemedicina) exclusivo para estes pacientes, adotando um fluxo diferente daquele utilizado pelos profissionais sem a suspeita de infecção pela Covid19. A política de proteção do ambiente de trabalho se baseou, entre outras medidas, na retirada de profissionais minimamente sintomáticos das suas atividades e testagem subsequente. Além das práticas de controle de infecção, higiene de mãos e do ambiente, distanciamento social e uso de EPIs. Até o momento foram realizados mais de 4.800 atendimentos. Por três meses mantivemos uma constância na taxa de testados que foram positivos, em torno de 4,5%. Com o aumento da incidência comunitária, que se refletiu no número de internações, essa taxa foi gradualmente subindo e hoje temos uma taxa próxima de 19% de profissionais positivos, com relação ao testados; em torno de 5-7% em relação a população total do hospital. Já foram testados (com RT-PCR) 2312 profissionais.

3 - Quais as expectativas no HC nesse momento quando população e governos locais estão afrouxando as medidas de isolamento físico?

O Brasil tem várias “epidemias” dentro da pandemia e as taxas são diversas comparando as regiões. A região sul, especialmente o Rio Grande do Sul foi um dos últimos a entrar na pandemia. Então temos regiões no Brasil com a curva estável ou descendente e atualmente no Rio Grande do Sul estamos em franco aumento dos casos. As medidas de isolamento físico contribuíram decisivamente para a preparação do hospital e permitiram a organização para a abertura de leitos, contratação de equipes e preparação destas equipes. Neste momento da pandemia, no sul, precisamos intensificar as medidas de distanciamento e isolamento social à medida que estamos já há algumas semanas com lotação em torno de 90% das CTIs Covid. Lotação que se agrava com as doenças relacionadas ao inverno. Assim, o discurso de afrouxamento de medidas em algumas regiões do país pode ser prejudicial no sentido de criar uma falsa sensação de segurança e conforto no que se refere à capacidade de atendimento do sistema de saúde em nossa região.

4 - Quais as providências a tomar, do ponto de vista da segurança dos profissionais do Hospital?

Do ponto de vista da segurança dos trabalhadores tiramos algumas lições na avaliação dos nexos causais das infecções em nossa população. 1. O aumento da curva de infecções nos profissionais tem uma clara relação com o aumento da prevalência da infecção na comunidade. 2. Uma maior ocorrência de casos em áreas não dedicadas ao atendimento da Covid também pode refletir essa fonte comunitária. 3. Transmissões relacionadas ao contato próximo entre os trabalhadores em locais fechados, áreas de lazer ou alimentação onde há um relaxamento no uso de equipamento de proteção individual (máscara). Neste momento, com a curva ascendente, estamos intensificando as medidas que estejam relacionadas a fontes comunitárias, como restrição maior de circulação de visitantes; redução dos procedimentos cirúrgicos e atendimentos não essenciais; ampliação das indicações de testagem para os pacientes não suspeitos de Covid-19; uso universal de máscara para todos os pacientes (em especial sem Covid-19).



62 visualizações

Posts recentes

Ver tudo
Sobrasp-png.png
  • YouTube - Círculo Branco
  • LinkedIn - Círculo Branco
  • Facebook - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle
Sociedade Brasileira para a Qualidade do Cuidado e Segurança do Paciente  - SOBRASP - CNPJ 31.834.170/0001-03 - Rio de Janeiro - RJ / contato@sobrasp.org.br