Reabilitação pulmonar pós alta hospitalar na Covid-19

A infecção pelo Coronavirus Disease 2019 (Covid-19) se espalhou pelo mundo de forma rápida e perigosa durante os últimos meses. O status de Pandemia foi declarado pela Organizacao Mundial de Saude (OMS) em 11 de março de 2020, devido a disseminação geográfica rápida em que a patologia se apresentou. Infelizmente, esta infecção pode, em muitos casos, gerar alterações pulmonares e, nos casos mais graves, necessidade de internação hospitalar. Alguns estudos, no início da pandemia, previram que, aproximadamente, 45% dos pacientes internados necessitariam de reabilitação pulmonar pós alta. Tal previsão vem se concretizando e talvez os números se tornem ainda maiores. Um estudo prospectivo, publicado em 2005, ao avaliar a SARS (Síndrome Respiratória Aguda Grave), síndrome viral até certo ponto semelhante a Covid-19, avaliou 94 pacientes após um ano da alta hospitalar, destes, 23,7% apresentaram redução na capacidade de exercício, se comparados a indivíduos da mesma idade. Vale ressaltar que, destas 94 pessoas, apenas 6 foram submetidas a ventilação pulmonar mecânica. Outros artigos, relacionados a SARS e H1N1, demonstraram que os pacientes que contraíram estas patologias, em seus respectivos momentos durante a historia, apresentavam déficits cardiorrespiratórios, de qualidade de vida e de performance muscular. Tomando estes estudos como base, é possível concluir que há possibilidade de déficit funcional para os pacientes que contraírem Covid-19 e, ademais, quanto maior for a gravidade da Covid-19, possivelmente maior será a necessidade de reabilitação. Ainda não há um consenso definitivo para se definir a gravidade da Covid-19, porque há muita diferença na apresentação clínica da doença; mas, atualmente, muitos autores baseiam-se na classificação da Comissão Nacional de Saúde Chinesa que divide a Covid-19 em casos leves, moderados, graves e críticos. É importante enfatizar que a doença pode ser completamente assintomática. Na Itália, por exemplo, observou-se que 22,8% dos pacientes com diagnóstico de Covid-19 estavam assintomáticos. A falta de uma classificação precisa da patologia torna mais difícil a compreensão dos resultados clínicos para tomada de decisão, segura, baseada em evidências. Para tentar ajudar no manejo da reabilitação destes pacientes foi publicado, em agosto de 2020, um estudo em que apresentou as experiências de centros de reabilitação de 11 países da Europa e América do Norte. Este trabalho observou que as principais sequelas decorrentes da Covid-19 são em ordem de prevalência: distúrbios respiratórios, incluindo alguns graves como fibrose pulmonar, cognitivos, redução do condicionamento físico, polineuropatia e miopatia do paciente critico, disfagia, rigidez articular e dor e, por fim, desordens psiquiátricas. Sendo assim, parece que a reabilitação pulmonar e a fisioterapia respiratória são de fundamental importância no tratamento dos pacientes com diagnóstico de Covid-19 após a alta hospitalar.

A reabilitação pulmonar refere-se ao atendimento individualizado aos pacientes com distúrbios pulmonares crônicos por meio de uma equipe multiprofissional. É importante lembrar que a reabilitação não se limita apenas a recuperação da função pulmonar por meio de exercícios e fisioterapia, mas se estende a recuperação nutricional, mental e mudança de hábitos como, por exemplo, parar de fumar etc. Além disso, um dos objetivos mais importantes da reabilitação pulmonar, refere-se à aceleração do processo de recuperação do individuo possibilitando seu retorno as atividades sociais com qualidade de vida, ou seja, voltar a conviver com sua família, retornar ao trabalho, ao lazer, bem como outras atividades do cotidiano.

Didaticamente, pode-se resumir os objetivos da reabilitação pulmonar na Covid-19 em objetivos em curto e em longo prazo. Em curto prazo, os objetivos são aliviar os sintomas respiratórios como a falta de ar (dispnéia) e desconforto respiratório, assim como reduzir a ansiedade e a depressão. Já a longo prazo, os objetivos são: preservar a capacidade funcional, melhorar a qualidade de vida, possibilitar o retorno do individuo as atividades sociais e reduzir a necessidade de novas internações hospitalares. Para tal é fundamental uma avaliação que abrange desde de testes de função pulmonar, passando por exames complementares e testes para qualificar e quantificar a condição nutricional, mental e física. É evidente que a frequência, intensidade, o tempo de reabilitação e os objetivos sofrem variação de acordo com o grau de acometimento pulmonar e outras variáveis como idade, comorbidades etc.

Em termos de reabilitação física, a presença do fisioterapeuta respiratório é fundamental. Para isso, o profissional utiliza técnicas de expansão pulmonar, de desobstrução, de treinamento muscular respiratório, de eletroestimulação neuromuscular, exercícios aeróbicos e fisioterapia motora, que abrange exercícios ativos, ativos assistidos, ativos resistidos, alongamentos, treinamento de equilíbrio, treinamento de transferências, treinamento de marcha etc. Isto porque as funções respiratória e motora estão, intimamente, relacionadas. Por exemplo, ao deambular, o paciente favorece a ventilação pulmonar e, consequentemente, as trocas gasosas. Pacientes impossibilitados de ficar em posição ortostática (de pé), ou de deambular, tendem a ventilar de forma limitada os pulmões. Assim, a reabilitação pulmonar depende da reabilitação motora e vice-versa. As sessões, após alta hospitalar, podem ter frequência de duas a cinco vezes por semana dependendo das condições clinicas e objetivos terapêuticos, sendo em alguns casos específicos, necessário acompanhamento diário. As sessões devem se desenvolver de forma gradual, de acordo com os objetivos de curto e de longo prazo, bem como observando a condição clinica do paciente.

A falta de acompanhamento por uma equipe multiprofissional de reabilitação pulmonar, após alta hospitalar, em especial dos pacientes graves e críticos, poderá se desdobrar em retardo da recuperação funcional dos pacientes, assim como redução da qualidade de vida e maior necessidade de internações hospitalares e, consequentemente, haverá necessidade de maior investimento público e privado no que tange ao tratamento a longo prazo destes indivíduos.

Autor: Bruno Presto

Fisioterapeuta, Membro do Conselho Científico da SOBRASP

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