• Sobrasp

Segurança ou Proteção?


Um sistema de saúde é uma estrutura na qual pessoas, instituições e organizações interagem para mobilizar e alocar recursos para prevenir e tratar doenças e lesões. Para funcionar precisa se apoiar em quatro pilares fundamentais: informação, gerenciamento, recursos humanos e financiamentos.


A análise de informações (registros, estatísticas, vigilância, pesquisas e conhecimento baseado em evidências) orientam medidas gerenciais preventivas e corretivas. Inseridas dentro de sistemas de tecnologia, facilitam a coordenação do cuidado com base em evidências e redução de erros e despesas, além de acelerarem e proverem mais acurácia na tomada de decisões gerenciais.

No que se refere ao gerenciamento e recursos humanos a Segurança do Paciente (Safety) tem sido considerada como uma das bases da busca da qualidade na assistência à saúde, associada a Efetividade Clínica ( resultado da interação do tratamento com o ambiente em que ele está sendo aplicado) e a Experiência do Paciente (gama de interações que os pacientes mantêm com provedores e profissionais de saúde).


Um aspecto fundamental mas pouco discutido, é a Proteção (Security) da estrutura onde a Segurança do Paciente se desenrola. E como evitar danos causados pela falta de segurança na estrutura, parte essencial da segurança a ser garantida nos estabelecimentos de saúde.

A revisão do noticiário coletada via internet desde 2010 mostrou que o número de vítimas fatais incêndios em hospitais é reduzido se comparado com os grandes incêndio que abalaram o país. Desde o incêndio no Gran Circus em Niterói em 1961 com 503 mortos e 800 feridos, no edifício Joelma em 1974 com 187 mortos e 300 feridos e na Boate Kiss em Porto Alegre em 2013 com 242 mortos e 680 feridos. Nestes casos os elementos letais foram a fumaça e a evacuação.


Ainda assim os dados são relevantes. Embora não exista uma fonte de consulta única sobre este tipo de evento[J1] , a revisão revelou que mais de 20 hospitais foram atingidos por incêndios (confinados ou não) em diversos estados do Brasil neste período. Estas informações sugerem que a incidência deste evento é mais comum do que se supõe.

O número de vítimas fatais contabilizado é reduzido em relação ao número de incidentes, ressalta-se que a maioria de óbitos ocorreu, este ano, em 2 incêndios.

Nos casos em que não houve a contenção inicial do fogo, a disseminação da fumaça e a evacuação, confirmaram ser os elementos críticos, sendo mais uma vez, os responsáveis pela maior parte dos óbitos.


Nas descrições, pode-se verificar que pouco se aprendeu através do conhecimento sobre os incêndios ocorridos fora dos hospitais. A preparação dos estabelecimentos de saúde não foi suficiente para conter a magnitude dos efeitos.


Existem diferenças (exceto a incidência e a gravidade), entre a proteção contra os eventos assistenciais e os não assistenciais? A análise e o tratamento de ambos os tipos de riscos devem ter prioridades diferentes, uma vez que os fatores comuns são o dano físico e o êxito letal?

Nos incêndios em hospitais, por ter em sua complexidade as múltiplas nuances que vão da prevenção a mitigação, observar-se que não existe uma fonte de consulta única sobre este tipo de evento. As notícias publicados pela imprensa ou periódicos da área da saúde, tornam-se as referências, para se tentar verificar se existem limites entre a segurança e a proteção, oferecidas em uma instituição de saúde.


O planejamento para dar segurança aos pacientes, profissionais de saúde e usuários dos hospitais frente a este tipo episódios, ainda está aquém daquilo do que pode se oferecer.

Neste contexto cabe destacar que existe um pequeno grupo de hospitais, que tem padrões de segurança internacionais de preparação para estas emergências, tendo condições de mitigar os efeitos do fogo.


Então retornamos a questão inicial: Segurança ou Proteção?


Sob os efeitos de um acidente, não existem fronteiras entre a proteção e a segurança.

Esta diferença, apesar de retórica, acontece quando os estabelecimentos de saúde identificam, avaliam os riscos e se preparam. A questão da segurança estrutural é subavaliada.


A aceitação sem análise crítica e tratamento adequado, permite que a ocorrência de eventos deste tipo, sejam traduzidas como tragédias, que necessitam de toda a solidariedade humana, ao produzir injúrias e desfechos fatais, em pacientes, familiares e profissionais de saúde, quando na realidade podem ser previsíveis, evitáveis, contidos e mitigados.


Correr riscos sem a devida preparação, não é uma opção. As perdas estruturais, danos e perdas de vidas são resultados terríveis.


Diante da possibilidade deste e de outros eventos graves, as diferenças entre a segurança do paciente e a proteção do paciente, não devem existir, uma vez que independentemente da causa, o estabelecimento de saúde tem que agir integralmente a favor dos paciente, familiares, profissionais de saúde e usuários.


A implantação da cultura de segurança nos estabelecimentos de saúde deve inserir os conceitos e as ações de proteção. Um reposicionamento nas áreas de ensino permitirá que se alcance o equilíbrio entre Segurança e Proteção do Paciente.


Citando Claudia Collucci na Folha de São Paulo em 13/09/2019[J2]


- ” Muito se tem falado sobre a insegurança hospitalar no tocante às ameaças das bactérias multirresistentes e das más práticas profissionais que geram eventos adversos. Já passou da hora dessa discussão incluir a situação dos prédios hospitalares e o treinamento de equipes para lidar com incêndios. Tem muita instituição do que com a real segurança mais preocupada com hotelaria para inglês ver do que com a real segurança de seus pacientes e funcionários”.

[J1]Este comentário levanta uma questão sobre a coleta de informações sobre incêndios entre Secretária de Defesa Civil e os CBM dos estados.

[J2]Este comentário dá apoio ao texto e não cria atrito entre o autor e as áreas atuais de disseminação do conhecimento

João de Lucena é membro da Câmara Técnica de Segurança do Paciente do Conselho Federal de Medicina

56 visualizações

Posts recentes

Ver tudo
Sobrasp-png.png
  • YouTube - Círculo Branco
  • LinkedIn - Círculo Branco
  • Facebook - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle
Sociedade Brasileira para a Qualidade do Cuidado e Segurança do Paciente  - SOBRASP - CNPJ 31.834.170/0001-03 - Rio de Janeiro - RJ / contato@sobrasp.org.br